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O BODE DO ALFACE
:: Artigo :: Autor: Carlos Rézio ::

A fome na África tem levado muitos pais de família a buscarem alternativas, com a finalidade de resistirem à morte, em raízes, formigas, outros insetos e meios deploráveis, fervendo-os por horas até perderem as toxinas. Tudo isso para não verem a si, seu cônjuge e a sua prole desfalecer e nunca mais verem o sol, a lua e as estrelas. Cenas advindas dos  despotismos, das desigualdades sociais, das práticas animistas, das demagogias, das ciências políticas internacional, das guerras civis, dos desentendimentos étnicos e das catástrofes de uma natureza bravia pelos descasos do homem moderno, fazem contraste com um continente repleto de belezas naturais notáveis, principalmente quando se menciona a vida selvagem e, uma extraordinária diversidade física e sócio-econômica, por existir extensos vales férteis, onde a vida parece não esvair. Conhecida como o “Berço da humanidade”, termo dado em função de abrigar uma das civilizações mais antigas e intrigantes da terra, os egípcios formaram um poderoso “império” a quatro mil anos atrás. Toda essa riqueza cultural e natural existente no continente torna a África um espaço muito singular.
Nas estranhas do continente,  gritos inarticulados de socorro de combatentes humanos, “buscam a vida para sobreviver”. “Humanos” dignos, dentro de suas comunidades, trabalhadores, honestos, mas devido às mazelas do grande apetite, trocam o  brio para se sujeitarem ao  hostil.  Além de o grande apetite os levar a hostilidade, sua consciência carregada de pesar por perderem o brio, enegrecem mais ainda a luz de esperança, por saberem que a imoralidade é o caos da humanidade. Dores não só estomacais, físicas, causa do definhamento, mas na psique que vai se detonando mediante a agucidade elevada da voz perdida na insensibilidade dos fartos.
“Alface”, herdado do primeiro nome do pai, africano, de nacionalidade moçambicana, tem no seu  bornal vivencial as agruras da guerra e da fome, foi e tem sido um gritante inarticulado, buscando a vida para sobreviver. Não bastasse a tudo, veio como flecha certeira em seu coração, a morte trágica do filho e da neta esmagados por um carro, vindo do ermo, por um motorista inescrupuloso que fugiu sem prestar socorro. Converteu ao evangelho quando ainda era escravo do álcool. Homem de caráter firme, amoroso, alegre e de coração ensinável, cresceu muito no conhecimento da Bíblia nos últimos anos. Pastor numa aldeia chamada Lamego, onde a maioria de seus membros são viúvas e viúvos, velhos sem forças para continuar a lutar pela vida, foram abandonados por seus familiares na velhice, acusados de serem feiticeiros, atitudes para justificarem o seu abandono, estavam morrendo sem nenhuma mão para cavar-lhes sepultura digna. Alface divide o que tem para alimentá-los, ajudando-os nas suas  machambas, acolhendo-os em sua casa quando doentes, ensinando-lhes de Cristo, andando de mãos entrelaçadas, demonstrando não só ser o pastor exercendo suas atribuições no cuidado de suas ovelhas, mais como um grande pai, que aconchega em seus braços seus muitos filhos que muito ama.
Vivendo de machamba, agricultura de subsistência, praticada por oitenta por cento da população e, procurando nela construir seu modo de vida como camponeses.  Por ser uma forma de agricultura para sustentar a vida, o que é plantado durante o ano acaba sendo insuficiente para a subsistência, levando-os à procura de meios alternativos com fins de gerar recursos que possam complementar a sustentabilidade da casa. Os meios que emergem, por falta de trabalho, são a criação de animais como: galinhas, porcos, cabritos e outros. Por mais absurdo que pareça são estes animais que ajudam no sustento. Criados, não como fonte de alimento, mas para obtenção do óleo, do sal do sabão, dos medicamentos, de vestimentas, como transporte para levarem as pessoas aos hospitais e fazer com que os mantimentos nos celeiros cheguem até a próxima colheita. Isso quando a doença não chega para ceifar os animais e as esperanças de seus proprietários. Os meses de novembro a abril têm sido angustiosos para maioria das famílias, pois a fome faz os estômagos reclamarem o pão existente na mesa dos fartos sem que jamais possam tê-los, nem cheirá-los, nem tocá-los, não por causa da distância dos ouvidos e dos olhos dos fartos, mas por causa de suas mãos e pernas que na comodidade se fecham como ostras porque não querem compartilhar do que possuem, com medo, talvez, de se acalentarem neste mal.
No intento da busca pela vida, numa manhã Alface rumou até a estrada que o levaria a uma solução, que supriria a falta de sua casa. Dentro de uma minibus, cortando o pavimento negro, na mente atravessava como flecha certeira indagações sobre o plano pretendido, se passaria no julgamento justo. Com o coração pulsante, ainda temeroso pela resposta que ouviria, desceu do automóvel, atravessou o asfalto e adentrou ao portão de quem achava poder ajudá-lo.
Era sete da manhã quando abri a porta da minha casa, o sol causticante já naquela hora do dia, sentado em uma cadeira avistei Alface com seu chapéu azulado, cabisbaixo, com os medidores de palmos entre os joelhos, na continuidade de suas indagações. Com as palmas das mãos ajuntadas, cercadas pelos dedos, num sentido de submissão, apresentado um aspecto cultural o cumprimentei estendendo a saudação de como estaria sua esposa, filhos, saúde, os velhos de seu cuidado e a igreja do seu pastoreio. Na reciprocidade respondi que os meus, minha saúde e o trabalho, estavam bem, obrigado! Convidei-o a sentarmos debaixo de uma frondosa mangueira onde o indaguei da surpresa de vê-lo em minha casa. Sua resposta embargada, com o coração pulsando forte, por não saber onde começar levantou coragem e contou-me o que o preocupava. Alface como muitos, tem na criação de animais seu escape para suprir as dores estomacais, possuía uma criação de cabritos, que embora pequena, o ajudava. Depois de lançar mão de alguns para a venda, restou-lhe algumas cabras e um bode. Desfazer destes seria a sentença para a morte! Mas já não lhe restava alternativa, o estomago já reclamava pelo pão! Numa atitude elevada, de luta pelos seus, sacrificaria o bode! Com voz trêmula, pediu que eu comprasse seu bode, mas não o matasse e nem o levasse de seu aprisco. Disse ele: “é meu reprodutor!” Alface tinha no bode sua ajuda para manter viva sua casa. O contrário, quem compra deve levar; quem é devedor, é óbvio que pague por ser direito inalienável, justo. Para mim uma oportunidade de aprender um alto valor, o princípio do fazer voltar. Devolver a alguém o que não lhe é mais de direito.
A exemplo do Bode do Alface, a maior devolução de quem recebeu sem lhe pertencer, é a graça de Deus. Seu favor imerecido levou seu único filho a pagar um alto preço no lugar de caveira. No madeiro, levou sobre si a morte, o pecado, à iniqüidade, as mazelas e as desgraças de muitos. Ele fez voltar a estes a Sua vida. A exemplo de Jesus o filho de Deus que morreu suas mortes e os devolveu Sua vida, cabem entender seu propósito de devolução. Como fartos do bem maior, é preciso ouvir a agucidade elevada da voz perdida dos inarticulados nas entranhas da África, que não só ecoam gritos por causa das mazelas do grande apetite, das dores estomacais, física, do definhamento, mas por algo intenso que os possam preencher a alma sedenta, o vazio que tem o formato do CORDEIRO QUE DEVOLVE. Nele e por Ele, cabem a comunidade dos fiéis, os seus santos, a responsabilidade e o dever de ouvir, alimentar e, através da ação do princípio do fazer voltar, os “Alfaces” possam conhecer o CORDEIRO QUE DEVOLVE A VIDA NO LUGAR DA MORTE. Cumprir a Missão é preciso!






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Carlos Rézio é membro da Igreja Tessalônica Apostólica de Goiânia-GO, é missionário do Projeto Nasce. Trabalha em        Moçambique há onze anos. Casado com Eunice Kato e tem um filho, Moses.


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