O PREÇO DA GRATIDÃO
:: Artigo :: Autor: Pr. Carlos Rézio ::
Caia uma cidade localizada na província de Sofala, a 400 kilómetros da Capital Beira, margeada pelo rio Zambeze, com uma extensão de 2.750 kilómetros de comprimento. Nasce na Zâmbia, passa pela Província angolana do Moxico, Tanzânia, Namíbia, Zimbábue, Malaui, Botsuana, atravessando Moçambique de oeste a leste, para desaguar no oceano Índico, tem sofrido há muitos anos um tempo com a seca, outrora com as enchentes, juntas partilhando extremos da fome, miséria, problemas socais e econômicos. Somando à gritos silenciosos de uma dor que sobreleva das entranhas de gente sofrida, esquecida, “marcadas para morrer”. Como não bastasse, agrega-se à situação a AIDS que tem privado da vida, homens, mulheres, jovens e crianças, cerrando portas de novas casas, atingindo não só os residentes, mas os que vão além, por ser uma cidade fronteiriça, indo fazer histórias funestas em seus lares, suas comunidades e suas cidades. Marginada ainda ao rio Zambeze a mais ou menos 40 kilómetros do distrito de Caia, encontramos uma localidade chamada Muraça. Um centro de formação da igreja Católica, por onde passaram muitas figuras importantes do cenário moçambicano. Nessa localidade também encontramos o puro Sena, língua falada na Província. Ladeada ao centro nos tempos de guerra buscando proteção e apoio, foi formando uma grande comunidade que prevalece até os dias de hoje. Muraça transporta as mesmas mazelas de Caia. Formada nestes cenários, não nos bastidores pedagógicos versáteis da intelectualidade do Centro de formação de Muraça, mas com uma cultura ínfima, aprendida nas ações comezinhas, usando como esferográfica os sentidos, e que talvez nunca possa se expressar em letras desenhadas por suas mãos em papel, seus sentimentos de gente, mulher, filha, esposa, mãe e cidadã. No entanto, escrita com uma dignidade invejável nas ações do dia-a-dia, com seu árduo trabalho, honestidade, generosidade e gratidão, contribuindo assim para uma sociedade decente e discente. Ciente de sua contribuição?... Não se sabe! Principalmente quando se ensina verdades com atitudes, ações e simplicidade, que supera qualquer técnica pedagógica. Porém, podemos ver com os “olhos da cara”, que tamanha contribuição, não é nada mais que um extinto de sobrevivência, de alguém que grita em silêncio para “ouvidos surdos ouvir”. Felizarda, cujo nome significa: indivíduo com muita sorte, extraordinariamente feliz, “ironicamente”?... Contudo conhecedores de que a circunstância adversa jamais poderá determinar a felicidade de alguém ou o caminho a seguir, principalmente quando os olhos deste estão mirando o Salvador, fruto de uma fé viva e enraizada. Ela, uma mulher ainda jovem, viúva com seis filhos pequenos, cuida da mãe e da irmã. Seu marido Zeca Samo, um pastor muito simples com a mesma formação da esposa, não obstante, levando vantagem sobre ela por saber ler e escrever um pouco, tinha um coração amouco por Jesus. Sua dedicação evangelística o levou a edificar Igrejas em Caia e Muraça nas Províncias de Sofala, e numa localidade chamada Jardim, Província de Tete. Zeca, através de uma transfusão de sangue, depois de ser atropelado por um carro, contraiu a pior matadura do século, AIDS, e dentro de um ano veio a falecer numa situação subumana. Em Caia fez historia com Zeca Samo, pastoreando e cuidando de sua grande machamba. Em Muraça onde passou a viver depois da morte do marido, agora sendo pastoreada e cuidando de sua pequena machamba, continua fazendo história. Dentro do possível eu e minha esposa ajudávamos Felizarda a sustentar a ela e seus seis filhos. Vivendo em uma palhoça coberta e cercada de capim, sem condições nenhuma já aproximando as chuvas, construímos uma casa o que para nós foi um quarto de alvenaria coberta com uma lona e capim. Encontrava-me em Caia fazendo um seminário para pastores, cujos corações sedentos para crescer, envolviam minha alma de satisfação. Nesse tempo era a colheita de batata doce, consumida não só no ”café da manhã”, como para amenizar a fome de muitas famílias num país onde 80% (oitenta por cento) da população praticam a agricultura de subsistência. Os meses de novembro a março é o período mais crítico da fome e, geralmente onde as famílias só se alimentam uma fez por dia, ao entardecer. Felizarda ao saber que eu me encontrava em Caia, e que no outro dia iria voltar para Beira, foi à machaba, colheu meio saco de batata doce. Levantou-se de madrugada, colocou na cabeça o saco de batata, quecou sua filha de quatro anos nas costas, pegou pela mão seu filho de sete anos e a pé rumou em direção a Caia cantando canções de alegria, estraçalhando com seus pés descalços as aluviões às margens da longa estrada com os mais de quarenta kilómetros que nos separava. No seu coração, quem sabe, poderia ouvir sua voz dizendo que era preciso chegar a tempo de poder encontrar o missionário para que ela pudesse compartilhar com ele um pouco do que tinha, do que a mãe terra lhe estava suprindo em tempo de fome. Depois de andar aproximadamente sete horas, lá estava ela chegando toda sorridente porque conseguiu me encontrar. A atitude é uma ação impregnada por um desprendimento de apoiar alguém que necessita de algo, sem retorno de benefícios, atos de um coração desprendido. Mas a atitude de tirar da boca, para alguém que não precisa, é um “disparate contradizente”. Contradizente... para alguém que tem com abundância, mas tem ouvidos surdos, não conseguindo captar a voz da cena os “gritos silenciosos” sublevados das entranhas e “olhos da cara” que não vêem. Disparate... para os que necessitam de ajuda vendo a cena, afirmam veemente que o possuidor está ferindo as regras da lógica, da razão, desfazendo de um bem valioso para oferecer a alguém provido. Para Felizarda isso se chama GRATIDÃO! Gratidão não é troca de favores. Favores não têm preço, mais podem ser retribuídos. Gratidão não! Gratidão é a maior forma de expressão de um coração agradecido por algo que recebeu de graça. Que não depende do esforço e nem do trabalho de quem recebe. É um ato na fartura e nas migalhas da mesa. Gratidão para com quem procurou ver nosso bem, suprindo o que faltava; desprovido de qualquer interesse. Cenários como esse, a maior cena não é a fome, AIDS, tuberculose e outras mazelas; não é a gente que estão sendo ceifadas por elas, muitas morrendo por causa do pecado, porém, cena da insensibilidade dos ouvidos que não ouvem os gritos silenciosos, mas patentes aos olhos da cara que não vêem. Cena do disparate contradizente dos providos do Excelente, pelo infortúnio do madeiro. Gente que resgatada quando mortas, recebendo vida, esperança, liberdade, mas parece ter perdido a atitude de se espalhar pelas terras das Caias e Muraças, onde quando entenderem o valor da gratidão, com certeza poderá levar o alimento mais valioso, para as Felizardas, o Cristo que saiu do infortúnio do madeiro, sepultado ao terceiro dia ressuscitou.
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